|| O Bonsai Segundo Seus Elementos Constituintes
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O Bonsai Segundo Seus Elementos Constituintes

O Bonsai Segundo Seus Elementos Constituintes

02 abr

Quando a arte do bonsai, de origem chinesa, chegou ao Japão, foram compilados alguns estilos básicos cuja tradição remonta até os dias atuais. Os estilos buscam representar diversas formas de árvores na Natureza segundo seu fenótipo, ou seja, segundo sua espécie e a forma adaptativa que a planta apresenta segundo a influência dos fatores ambientais. Conforme os fatores ambientais afetam diversas partes da planta, a saber a raiz, o tronco, os galhos e a copa – também flores e frutos – os estilos de bonsai podem ser analisados segundo estas partes, digamos constitutivas.

A parte da raiz que interessa no bonsai é o chamada raiz exposta, que na verdade nada mais é que o conjunto de raízes logo na base do tronco e posiciona-se aparente ao expectador, posto que está acima do nível do substrato. As raízes expostas representam solidez para a planta, além de ter efeito estético importante. As árvores de folhas planas geralmente apresentam raízes expostas marcantes, posto que o fenótipo em questão é o das árvores tropicais, que geralmente possuem copas profusas. Já nos juníperos, as raízes expostas tendem a ser mais discretas ou exíguas.

O tronco conta a história da árvore bonsai. De fato, se fizermos um corte transversal no tronco das árvores poderemos dizer-lhe a idade simplesmente contando os anéis de crescimento que surgem com a alternância dos períodos de atividade e dormência da planta. No caso do bonsai, o tronco pode nos contar diversas histórias como, por exemplo, a ação dos fatores ambientais sobre o fenótipo da planta, esteticamente pode criar ritmo ou não, indicar a disposição e o formato da copa, constituindo elemento fundamental para distinguir diverso estilos de bonsai.

A disposição dos galhos representa o atual estádio da planta, o último fenótipo que a planta demonstra. Esteticamente, deriva diretamente do tronco e mantém com as raízes expostas uma forte relação de proporção, dando ao conjunto maior senso de equilíbrio. Além disso, a disposição dos galhos determinará a copa, o conjunto das folhas, complementando o resultado final do bonsai. O posicionamento da copa e a profusão das folhas, pode definir também uma série de estilos de bonsai.

Agora iremos analisar como as diversas partes constituintes da planta podem nos indicar estilos muito claramente.

Chokkan: representa a árvore que cresceu sem carência de sol e não sofreu com intempéries. Tornou-se alta. Deve possuir grandes raízes expostas, já que naturalmente possui uma copa robusta. Seu tronco é ereto e reto.

Shakkan: representa a árvore que não sofreu com intempéries a não ser certa carência de luz, que a tornou inclinada. No geral á alta, possui boa copa e tem o tronco ereto e inclinado, apresentando conicidade perfeita, nunca invertida. Suas raízes expostas costumam ser amplas, deixando este estilo muito mais elegante.

Moyogi: representa a árvore que cresceu sofrendo com intempéries tal como ventos e rupturas de seus galhos. Adulta apresenta o tronco ereto e sinuoso. Suas raízes expostas são amplas e profusas. Cresce ereta pois não representa carência de luz nem erosão do terreno. É um dos estilos mais populares, dramático e cativante. O Moyogi é o estilo mais amados pelos iniciantes da arte e geralmente traz em si as todas proporções consideradas perfeitas num bonsai.

Yose Ue: é o agrupamento de árvores, o chamado bosque. Neste, o tronco determina o estilo pelo seu número, pois há que se ter um mínimo de nove troncos independentes para constitui-lo.

Ikabudaki é um outro interessante estilo cujo tronco constitui elemento fundamental. Representa a árvore cujo tronco original tombou ao solo e os galhos remanescentes converteram-se em novos troncos. É também conhecido como “estilo balsa”.

Sharimiki é a chamada madeira morta e representa a árvore que teve parte descascada por intempéries e deixa a madeira exposta ao sol. Aqui o tronco pode definir o estilo pois o fator madeira morta deve estar disposta justamente neste elemento.

Sokan é o tronco duplo provocada por uma bifurcação quase que no nível das raízes expostas. Lembrando que estas últimas são únicas e os dois troncos não existem de fato, sendo antes uma bifurcação no nível das raízes, não há dois troncos independentes.Geralmente, as raízes são amplas para equilibrar e harmonizar o conjunto pois as copas tendem a ser grandes, traduzindo maturidade.

Bankan é tronco que se enrola sobre si mesmo dado a um movimento radical e marcante. Representa uma árvore sujeita a intempéries severas.

Sabamiki é o tronco rasgado, partido em dois tendo o lenho descoberto. Representa uma árvore que foi partida por um raio.

Han Kengai  é quando temos a inclinação do tronco até o nível de substrato ou parcialmente para baixo. Representa uma árvore que cresceu numa encosta e tendo pouca sustentação do tronco inclinou sua copa levemente para baixo. Aqui  a copa indica elegância do estilo – apesar da flagrante dramaticidade – pois geralmente cresce em oposição ao tronco. As raízes opostas tendem a ser mais discretas.

Kengai é quando temos a inclinação do tronco até abaixo do nível do substrato. Entretanto, ao contrário da Han Kengai, é intensamente dramática pois inclina o tronco radicalmente para baixo. Mais uma vez, a disposição dos galhos e a copa percorrem movimento inverso ao do tronco. As raízes expostas tendem a ser mais discretas, como em Han Kengai.

Neagari apresenta amplo e consistente nebari, sugerindo árvores frondosas ou parcialmente desenterradas, representando bem os estilos compostos em folha plana ou árvores em ambientes de erosão.

Kabudachi representa múltiplos troncos partindo de um único nebari e representa uma árvore que sobreviveu a partir de uma original morta.

Seki Joju é a raiz abraçada à rocha e representa a árvore que cresceu sobre uma grande pedra. Na verdade a pedra é um obstáculo e a raiz está a circundando, com o tempo formou-se em profuso nebari, tendo atingido o solo e estabelecido o ambiente de sobrevivência da planta no que concerne a recursos hídicos.

Ishisuki é a raiz que cresce por dentro da rocha ocupando ranhuras ou rachaduras na mesma. Representa árvores adaptadas para crescer em substrato rochoso e montanhoso, que muitas vezes têm que buscar água em lençol freático muito abaixo.

Hokidashi é a chamada árvore em formato de vassoura. Representa uma árvore cuja copa é muito ramificada, seja em função da espécie ou em função de fatores ambientais.

Bujingi (Literati) é a copa alta demais em função do tronco. Este, sinuoso e esguio busca a altura sem se deter em pormenores, por isso não vemos neste estilo a formação de galhos. Somente no ápice verifica-se certa ramificação e a copa, muitas vezes exígua. O nebari costuma ser dicreto.

Fukinagashi é a copa varrida pelo vento e representa uma árvore que cresceu em um ambiente em que sopra vento forte e constante.

Lembrando por fim que flores e frutos não são essenciais no bonsai. O importante é que tenha a aparência de uma árvore adulta, em seu esplendor.

Muito embora tais elementos apontem para estilos rígidos, na prática podem ser mesclados conforme a imaginação e o material que o artista tem disponível, lembrando que o bonsai é um objeto de arte vivo, podendo variar em forma e carregando uma história dentro da tempo mensurável, fazendo sentido nas palavras do mestre quando comenta que “o bonsai não é o resultado final e sim a jornada”.